Francielli Tiem

​O "Alô Tchê" que ecoa na memória

Ivan Taborda e as memorias de minha infância


​O Álbum de Ivan Taborda

Hoje, um pedaço da minha infância mudou-se para o céu. Ou melhor, virou estrela — daquelas que brilham com o brilho firme de quem soube honrar as raízes. A notícia da partida de Ivan Taborda não é apenas um obituário; para quem cresceu no interior do Paraná nos anos 80, é o fechamento de uma cortina que protegia nossas lembranças mais doces.

​Minha memória visual tem resolução de TV Sharp. Consigo fechar os olhos e me ver na casa da minha avó Mariquinha, em Cascavel. Enquanto ela preparava minha mamadeira de leite com achocolatado, a trilha sonora vinha da sala: o programa Alô Tchê. Lá estava ele, aquela figura bonachona, barbuda e pilchada como um velho missioneiro. Para uma criança, Ivan não era apenas um apresentador; era um personagem que dava vontade de apertar, um gigante gentil que trazia o Rio Grande para dentro da nossa cozinha.

​O tempo passou, a geografia mudou, mas o rastro de Ivan permaneceu. Nos anos 90, longe de Cascavel, reencontrei-o nos comerciais de TV. Quem não se lembra do clássico bordão do chá Coscarque? "Essa toma Coscarque!" virou código, brincadeira de colégio, parte do nosso dialeto informal.

​Anos mais tarde, o destino — ou o ofício — me colocou frente a frente com o ídolo. Confesso que levei um susto: ele estava mais magro, sem o bigode e a barba que habitavam meu imaginário. Seria efeito do próprio chá? Por um segundo, a fã mirim entristeceu; parecia que o tempo tinha levado o "meu" Ivan Taborda. Mas bastou ele soltar o primeiro "Alôôô Tchê!" para que a magia se recomposse. A alma ainda era a mesma. O carisma permanecia intacto.

​Ivan foi muito mais que um comunicador. Como fundador do CTG Querência dos Pioneiros e músico, ele foi o "influencer" de uma era pré-digital. Ele não precisava de algoritmos para viralizar; ele usava a verdade. Sua contribuição para a identidade local foi tão profunda que se tornou objeto do meu TCC em Jornalismo. Eu queria entender como aquele homem cativava sem forçar, como ele preservava a tradição sem torná-la arcaica.

​Hoje, o rádio e a TV ficam um pouco mais silenciosos. Para quem acredita na esperança do reencontro, o adeus é apenas uma vírgula. Seu "Alô" agora vira um "Até breve, Tchê". Por aqui, entre uma saudade e outra, guardamos o legado de quem não apenas apresentou um programa, mas ajudou a escrever a história de quem somos.



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