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O Teatro das Sombras e o relatório que não foi

O relatório não passou, mas recado foi dado

Carlos Moura Fonte: Agência Senado
O Teatro das Sombras e o relatório que não foi Parecer de Alessandro Vieira foi rejeitado por 6x4 Fonte: Agência Senado

A política brasileira é perita em produzir tramas que misturam o rigor jurídico com o puro suco do drama institucional. O episódio recente da CPI do Crime Organizado, sob a relatoria do senador Alessandro Vieira (MDB-SE), é o mais novo capítulo dessa série que testa os limites entre os Três Poderes. O pedido de indiciamento de três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes  e do Procurador, Geral da República, Paulo Gonet, não é apenas um movimento burocrático; é um grito de guerra em forma de papel timbrado.

O relatório de Vieira não economizou nas tintas. Ao citar o Banco Master e sugerir "movimentações financeiras e decisões suspeitas", o senador tocou na ferida mais exposta de Brasília: a relação entre o capital, o processo decisório e a toga. Quando um relator pede o indiciamento da cúpula do Judiciário e da PGR por supostos crimes de responsabilidade, ele está, na prática, tentando inverter a hierarquia do medo.

A frase de Vieira, afirmando que os ministros "não são donos do país", ecoa o sentimento de uma parcela do Legislativo que se sente asfixiada pelo que chamam de "ativismo judicial". É a crônica de um confronto anunciado, onde a imunidade parlamentar serve de escudo para ataques que, em outros tempos, seriam impensáveis.

Para entender a gravidade (e a posterior queda) do documento, vejamos os pilares da acusação:

Dias Toffoli -  Suspeitas de ilícitos e decisões relacionadas ao setor financeiro. 

Gilmar Mendes - Indícios de crimes de responsabilidade em decisões monocráticas.

Alexandre de Moraes -  Supostas irregularidades no âmbito de processos sensíveis. 

Paulo Gonet (PGR) - Omissão ou conivência em investigações de interesse da comissão. 

Apesar do barulho ensurdecedor nas redes sociais e nos corredores do Congresso, o desfecho foi o clássico "morreu na casca". A Comissão rejeitou o relatório. Esse movimento revela duas realidades distintas:

 Nem mesmo seus pares na CPI estavam dispostos a assinar o que seria interpretado como um "atentado" institucional direto ao STF. O risco político de uma retaliação jurídica pareceu alto demais para a maioria.

 A rejeição demonstra que, embora o discurso de enfrentamento ao STF seja popular para certas bases eleitorais, a estrutura do Estado ainda opera sob a lógica da autopreservação e do pacto de governabilidade.

Se o relatório foi rejeitado, por que ele importa?

Importa porque ele normaliza o impensável. O que antes era restrito a debates em redes sociais agora consta (ainda que como proposta vencida) nos anais do Senado Federal.

A tentativa de indiciar o PGR e ministros do STF em um mesmo pacote é uma manobra de cerco. Ao atingir Gonet, o relator ataca o "filtro" das denúncias; ao atingir os ministros, ataca o "veredito". No fim, a CPI do Crime Organizado entregou menos uma peça jurídica e mais um manifesto político.

O relatório não passou, mas o recado foi dado. Em Brasília, às vezes, perder uma votação é apenas uma forma estratégica de ganhar o debate público, mantendo a chama do conflito acesa sob o pretexto da fiscalização. A dúvida que fica é se essa corda, de tanto ser esticada, ainda suporta o peso da próxima crise.



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