Com medo, moradores de Guaíra denunciam: “estamos aterrorizados com ações do Bope/Rone na cidade”

Moradores de Guaíra, no extremo oeste do Paraná na fronteia do Brasil com o Paraguai, se dizem desesperados com as ações das equipes do Bope/Rone (Batalhão de Operações Policiais Especiais – Rondas Ostensivas de Natureza Especial) da Polícia Militar do Paraná que estão na cidade, vindas de Curitiba, há cerca de duas semanas.

Desde a sexta-feira (24) foram duas mortes atribuídas a confrontos com a polícia e relatos de agressões que não param de aparecer. Porém, apesar dessas condições, o que tem imperado ali é a lei do medo. Com receio de falar às autoridades, familiares e vizinhos de quem foi vítima se diz aterrorizado, não sabem a quem recorrer. “A gente tem medo de aparecer, de ir na polícia denunciar. Desde que começou tudo isso eles passam várias vezes na frente da casa das vítimas. Outro dia perguntaram para um grupo que estava na rua quem havia matado o rapaz na semana passada, quando um deles falou que achava que era a polícia, os policiais disseram que iriam dar na cara, bater muito em quem repetisse aquilo”, contou um morador local à reportagem do Portal24.

Ainda segundo relato dos locais, assim que os policiais chegaram à cidade pediram quais eram ou pontos considerados mais perigosos e violentos e foram neles que passaram a agir mais fortemente.

Na linha de frente
Oliveira Castro e Salamanca nunca foram localidades consideradas tranquilas. Há 10 anos tenho acompanhado a evolução de crimes transfronteiriços e a participação exponencial daquele entorno para o crescimento de crimes como tráfico internacional e contrabando. Por anos, esses dois pontos foram considerado pela Polícia Federal como o eixo mais problemático e vulnerável à segurança quando o assunto era a organização de quadrilhas e portos clandestinos, onde as lanchas carregadas vindas do país vizinho atracam para descarregar mercadorias que entravam ilegalmente no Brasil naquele entorno.

Isso porque os dois distritos ficam muito próximos à barranca do rio Paraná, na fronteira do Brasil com o Paraguai. Foi justamente nesses dois lugares onde ocorreram as duas mortes recentes.

Dois confrontos em 3 dias
Numa dos casos, um homem de 37 anos foi morto a tiros no início da noite do dia 24 de janeiro. Familiares contestam a informação de que ele estava armado, sob a alegação que ele não tinha armas e também não tinha motivos para usar uma. Outra contestação de parentes é que o revólver que supostamente foi usado por ele só teria aparecido na Delegacia da Polícia Civil muito tempo depois do término da ocorrência, por volta da meia-noite. A conclusão da ocorrência teria sido logo após às 22h. A família reforça que uma série de fotos da morte do rapaz passou a circular em grupos de trocas de mensagens e que em nenhuma delas há uma arma próxima do corpo, contribuindo, segundo eles, com a tese de que não estava com o 38 indicado na ocorrência.

A outra morte foi registrada 3 dias depois, na madrugada de domingo para segunda (27) e, mais uma vez, as informações são conflitantes. Testemunhas afirmam ter ouvido a vítima gritar enquanto, supostamente, apanhava e depois disso se ouviu tiros. Os policiais afirmaram que o homem conduzia um veículo carregado com cigarros contrabandeados, capotou o carro na fuga, tentou fugir a pé e que, ao se embrenhar numa mata, teria revidado a tiros, sendo então atingido pelos agentes. “A gente ouviu gritos dele pedindo para parar de apanhar, que não era bandido, aí, um tempo depois foram os tiros”, comenta outro morador.

Populares afirmam ter procurado o MP (Ministério Público) local para registrar reclamações, mas que houve recusa em acolher as denúncias. Até o momento essa informação não foi confirmada pelo Ministério Público do Estado do Paraná.

Agressões
Além das mortes, há relatos de agressões, algumas em vias públicas, sobretudo das localidades consideradas mais violentas da cidade. Uma mulher usou as redes sociais para relatar um caso que, segundo ela, aconteceu na rua onde mora.

Seu texto afirma: “mais um gente, como assim, mais um? Que ação policial? Os policiais estão espancando e matando por covardia, não tem confronto nenhum não, tem nada não e eu posso afirmar, pois espancaram um homem na rua da minha casa (aqui do lado) sem dó nem piedade, eles quebrou (sic) as duas pernas e os dois braços deste homem e ainda cortou (sic) a orelha do menino, minha mãe e meu irmão estavam sentados na área da frente da minha casa, veio um policial e mandou os dois entrarem pra dentro (sic) logo em seguida ouvimos gritos e pedidos de socorro, saímos na frente de casa para olhar, os policiais estavam espancando um homem, gritamos para parar, perguntamos o que estava acontecendo, não responderam (...) veio (sic) dois policiais gritando com a gente nos chamando de filhos da p...., vagabundos. Eu pedi para o policial ter calma, ele me chamou de p...., vagabunda, filha da p..., sério isso?”.

O texto segue, “ahh e não termina aqui não, os policiais ainda disseram que se a gente não entrasse pra dentro (sic) de casa e calasse a boca eles iam meter bala na gente, no momento que o policial estava falando todas essas bobeiras eu já tava ligando para outra polícia para tentar pedir ajuda, o outro policial ouviu e desligou, a gente ligou para várias polícias de Guaíra e ninguém quis vir ajudar os policiais de Oliveira Castro, não quiseram ajudar... Minha mãe estava passando mal por tudo que aconteceu, ainda estou procurando os policiais que era para tá (sic) nos defendendo, não aterrorizando ainda mais”.

Em outra postagem, foi uma das vítimas quem escreveu. Colocou uma foto com sinais de espancamento e a seguinte legenda: “minha proteção morreu na cruz e a sua está matando nas ruas”.
O Portal24 apurou ainda que ao menos uma das vítimas de agressão foi internada em um hospital de Toledo. Segundo testemunhas, o rapaz teve ao menos uma das pernas quebradas e ferimentos moderados por todo o corpo. A família não foi localizada para falar sobre o assunto, mas testemunhas disseram que o rapaz não revidou à abordagem que resultou nos ferimentos.

Os órgãos de segurança
O Comando Geral da Polícia Militar do Paraná foi procurado para se manifestar sobre o assunto, mas até o momento não houve retorno.
Já na Secretaria Municipal de Segurança Pública e Trânsito de Guaíra, o secretário Edson Manoel Auler afirma ter apenas ouvido boatos sobre as reclamações, mas que as ações em segurança, tanto do governo federal quanto do Estado, estão sendo benéficas à cidade. Segundo ele, o enfrentamento ao crime organizado tem mexido com as estruturas de quem vive dele na fronteira e que essa mudança gera descontentamentos. O secretário completou ainda que as duas mortes em confronto ocorreram com pessoas que tinham passagem pela polícia e ligadas a ações ilícitas.


O que diz o `MP
A 2ª Promotoria do Ministério Público em Guairá, em resposta ao questionamento feito pelo Portal24, afirmou já ter instaurado um procedimento investigatório criminal para apurar as circunstâncias de ao menos uma das duas mortes em confronto registradas em Guaíra na semana passada.
O MP quer saber se houve excesso dos policiais na ação que resultou na morte de um rapaz durante a ação policial. Assim como o relatado com exclusividade pelo Portal24, testemunhas alegam que o rapaz foi espancado antes de morrer, já a versão dos agentes diz que ele conduzia um veículo carregado com cigarros contrabandeados, capotou o carro durante a fuga, seguiu fugindo a pé, revidou a abordagem e acabou sendo baleado, morrendo no local.
O MP em Guaíra reforçou ainda que está acompanhando os desdobramentos de tais situações, bem como possíveis casos de agressões de policiais nas abordagens. A principal reclamação de populares trata das ações de grupos especiais que estão na cidade, como o Bope/Rone, vindos de Curitiba. Porém, o MP nega que tenha sido procurado por moradores locais que desejassem formalizar as reclamações acerca dos fatos. Populares disseram ao Portal24 que chegaram a procurar o MP, mas não conseguiram fazer a denúncia. “Inclusive o MP reforça que está de portas abertas para quem quiser fazer suas reclamações, mas até o momento não fomos procurados sobre esses casos específicos”, afirmou a assessoria de imprensa do órgão.


Via: Redação/: Juliet Manfrin- Foto: Divulgação/Prefeitura de Guaíra

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